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terça-feira, 16 de junho de 2009

Ótimo texto para trabalhar classe gramaticais.

De gramática e de linguagem
E havia uma gramática que dizia assim:
“Substantivo (concreto) é tudo quanto indica
Pessoa, animal ou cousa: João, sabiá, canta”.
Eu gosto é das cousas. As cousas, sim!…
As pessoas atrapalham. Estão em toda parte. Multiplicam-se em excesso.
As cousas são quietas. Bastam-se. Não se metem com ninguém.
Uma pedra. Um armário. Um ovo. (Ovo, nem sempre, ovo pode estar choco: é inquietante…)
As cousas vivem metidas com as suas cousas.
E não exigem nada.
Apenas que não as tirem do lugar onde estão.
E João pode neste mesmo instante vir bater à nossa porta.
Para quê? Não importa: João vem!
E há de estar triste ou alegre, reticente ou falastrão,
Amigo ou adverso… João só será definitivo
Quando esticar a canela. Morre, João…
Mas o bom, mesmo, são os adjetivos,
Os puros adjetivos isentos de qualquer objeto.
Verde. Macio. Áspero. Rente. Escuro. Luminoso. Sonoro. Lento. Eu sonho.
Com uma linguagem composta unicamente de adjetivos
Como decerto é a linguagem das plantas e dos animais.
Ainda mais:
Eu sonho com um poema
Cujas palavras sumarentas escorram
Como a polpa de um fruto maduro em tua boca,
Um poema que te mate de amor.
Antes mesmo que tu lhe saibas o misterioso sentido:
Basta provares o seu gosto…
(Mário Quintana)

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Crônica: Aflição de morte

A sensação de calor era intensa e o suor escorria-me no rosto. Uma agonia invadia todo meu ser e eu sentia as lágrimas brilharem-me os olhos. Um nó na garganta aumentava o desconforto daquela hora angustiante e o gosto do sangue enchia-me a boca. Mil e uma lembranças vinham-me à mente, lembranças desconexas, onde tempos e lugares misturavam-se desordenadamente. Sei bem que por diversas vezes, naquele curto espaço de tempo, lembrei da casa de minha mãe, das comidas que ela fazia; quase cheguei a sentir o cheiro do “cozido-de-panela” que tão bem ela preparava.


Mas agora ali estava eu irremediavelmente perdido, sofrendo em terras alheias e distantes. A choupana de palha, o verão, a quentura dos “brorrobrós”, o fogareiro acesso, o roçado ainda por ser brocada. Quanta lida por fazer! E eu naquele penar, desfalecendo ante meu algoz.


Lembrei-me de novo da casa de minha mãe, de sua comidinha boa. Senti saudades. Quem dera pudesse voltar. Mas agora eu estava ali, casado com o “diacho” dessa mulher que não sabe cozinhar e deixou a carne crua e feijão sem sal.

— Oh trumento!
(Messias Rodrigues)

Um Poema: Nonsense

Em cada pedra um nome,
Em cada nome uma história
De caminhos e pedras
Trilhados a pés descalços:
Letras de uma saudade incontida,
De andarilho da infância
Em que me fiz caminho
E me tornei homem:
Pedra
(Messias Rodrigues)